Acesso à internet e infraestrutura escolar foram os maiores desafios das redes municipais de educação em 2020

Acesso à internet e infraestrutura escolar foram os maiores desafios das redes municipais de educação em 2020. É o que aponta o levantamento feito pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e do Itaú Social. Em sua quarta etapa, o estudo ouviu 3.672 municípios, entre 29 de janeiro e 21 de fevereiro deste ano, o que representa dois terços das redes municipais de educação do País. 

Em entrevista coletiva, o vice-presidente da Undime, Marcelo Costa, afirmou que desde a primeira etapa da pesquisa, em abril de 2020, os municípios foram ganhando segurança para definir estratégias para a educação, em meio à pandemia, tendo o levantamento como um importante instrumento para a tomada de decisão. 

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O acesso dos estudantes à internet foi o principal desafio enfrentado pelas redes, em 2020: 78,6% identificaram um grau de dificuldade entre médio e alto nesse quesito. O presidente da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia, destaca a importância de ampliar a conectividade no País por meio de ações como a sanção do Projeto de Lei 3.477/2020, que permite que recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações sejam direcionados para estados e municípios, para garantir a conectividade de crianças e adolescentes da rede pública, que vivem em famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).

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Em segundo lugar está a adequação da infraestrutura das escolas públicas municipais, a qual 69,2% das redes classificaram como média e alta dificuldade. Outros desafios apontados pelas redes são planejamento pedagógico, acesso dos professores à internet, formação dos profissionais e trabalhadores em educação e reorganização do calendário letivo 2020 e 2021.

Ensino não presencial

Segundo o levantamento, cerca de 70% das redes respondentes concluíram o ano letivo de 2020 até dezembro do ano passado. Entre elas, 91,9% o fez apenas com atividades não presenciais. A maioria concentrou as atividades em materiais impressos (95,3%) e orientações por WhatsApp (92,9%); mas também foram utilizados recursos como videoaulas gravadas (61,3%), orientações online por aplicativos (54%), plataformas educacionais (22,5%), videoaulas online ao vivo (21,3%), aulas pela TV (4,1%) e pelo rádio (2,6%). Apenas 2,4% das redes não oferecem atividades remotas.

No entanto, o estudo mostra que o uso de aplicativos especializados e plataformas pedagógicas estão mais presentes em municípios maiores.

Lara Félix de Faria, de 15 anos, é aluna da rede municipal de ensino de Arceburgo – cidade mineira com cerca de 10 mil habitantes. A estudante conta que durante o ano de 2020 – no qual cursou o 9º ano do ensino fundamental -ela ia até a escola buscar as atividades em material impresso, que deveriam ser feitas e devolvidas semanalmente. As explicações e dúvidas eram esclarecidas pelo WhatsApp. 

A jovem diz que se sente prejudicada com o modelo. “Apesar do esforço dos professores para nos ajudar, eu acredito que tenha sido prejudicial, já que nada é capaz de substituir as aulas presenciais. Até mesmo se tivesse tido aulas online, como acontece em outras escolas, acho teria sido mais proveitoso”, comenta.

Para o presidente da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia, o dado ressalta a desigualdade no acesso às tecnologias entre redes municipais de educação, e reforça a importância de investir em conectividade.

A pesquisa também mostra que 94,7% das redes respondentes declarou ter monitorado as atividades pedagógicas não presenciais em 2020. Segundo o presidente da Undime, esse monitoramento é fundamental, pois permite adequações no método de ensino – o que ele chama de ciência do dia a dia.

Para quase 60% das redes, a participação dos alunos nas atividades presenciais foi acima de 75%. Ítalo Dutra, chefe de Educação do UNICEF no Brasil, afirma que é preciso ir atrás dos outros 25% que não tiveram acesso a nenhum tipo de conteúdo, seja por material físico ou digital. Segundo ele, com a evasão escolar durante a pandemia, o Brasil corre o risco de voltar a números de 15 anos atrás, de alunos fora da escola.

Planejamento 2021

A pesquisa mostra que pouco mais da metade dos municípios respondentes (53%) elegeram novos prefeitos em 2021, dando início a uma nova gestão. Apesar disso, mais de 90% das redes municipais estavam discutindo ou implementando o currículo escolar 2020/2021. Em quase todas (91,3%), as escolas participaram do planejamento, o que, para o presidente da Undime, é fundamental, para o seu cumprimento.

Durante o período do levantamento de dados (29 de janeiro e 21 de fevereiro), mais de 90% das redes disseram que pretendiam retornar as aulas entre janeiro e março de 2021, sendo 63,3% delas de forma não presencial; 26,3% de forma híbrida; 3,8% presencialmente e 6,6% ainda não tinha definido. Os percentuais variam de acordo com a Região do País.

Segundo Ítalo Dutra, chefe de Educação do UNICEF no Brasil, 5,5 milhões de crianças e adolescentes, com idades entre 6 e 17 anos, não tiveram acesso à escola em 2020, no Brasil. Ele explica que as mesmas devem ser as últimas a fechar e as primeiras a reabrir em qualquer emergência ou crise humanitária.

“A exclusão escolar afetou, em especial, as crianças e os adolescentes mais vulneráveis: as meninas e os meninos pretos e pretas, as famílias mais pobres e, em especial, as regiões Norte e Nordeste, que têm indicadores de educação mais frágeis. É por isso que a gente precisa reabrir as escolas com o máximo de segurança possível”, avalia.

No entanto, ele ressalta que a abertura das escolas não será igual no País inteiro. Cada município deve levar em consideração a sua própria situação, o que não significa que todos os estudantes voltarão para as salas de aula ao mesmo tempo.

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Segundo a pesquisa, em média, metade das redes respondentes ofereceu formações relacionas à Covid-19, em 2020, para os profissionais de educação, com uma clara tendência positivas para os municípios maiores. Os principais temas abordados foram protocolos de segurança sanitária nas escolas (77,9%); tecnologias para ensino remoto (74,1%) e acolhimento e competências socioemocionais (72,1%).

Além disso, 93,5% das redes já concluíram ou estão em processo de discussão dos protocolos de segurança. Ítalo Dutra, chefe de Educação do UNICEF no Brasil, ressalta a importância de envolver a comunidade escolar nesse processo.

“É fundamental seguir todos os protocolos de prevenção da Covid-19, como uso de máscara, higienização das mãos, distanciamento social – tanto dentro da escola, quanto fora dela. E obviamente, é imprescindível envolver professores e demais profissionais da educação, estudantes, seus familiares e a comunidade escolar como um todo, no processo de construção das condições para reabertura segura das escolas”, afirma.

A pesquisa completa está disponível no link.



Fonte: Brasil 61

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