Jacubas e mocotós

O ouro-pretano citadino, o residente na cidade, herdou, não tudo, mas algo do que foi se acumulando, ao longo dos anos, no espírito coletivo, desde os primórdios, quando aqui chegaram os primeiros bandeirantes, atraídos pelas primeiras pepitas encontrada no regato Tripuí; pepitas que teriam sido perdidas, devido à sua aparência sem valor, se não fosse a curiosidade de alguém que lhes rompeu a casca grossa para ver o interior.

O ambiente do garimpo, rude, movido à cobiça, cheio de tretas e mutretas, açulou a desconfiança mútua entre toda a população mineradora, subordinada à vontade dos líderes, dos chefes, pois se leis havia, estavam longe, no espaço e da vontade dos mesmos chefes.

Enquanto isso entre indivíduos, no plano coletivo crescia o sentimento de repúdio a qualquer intromissão vinda de fora, especialmente de localidades que surgiam e cresciam na vizinhança. Essa intromissão acabou se dando pelos “emboabas”, que não eram da vizinhança, vinham de longe e chegaram a vencer a guerra travada contra paulistas, mas acabaram por serem expulsos.

Criação de Vila Rica

Da luta contra os “emboabas” resultou a intervenção direta do colonizador, até então meio distante da vida daqueles arraiais mineradores. Foram então unificados os pequenos arraiais, para dar origem a Vila Rica. Surgiu também, com isso, o vila-riquense, antecessor do ouro-pretano.

Jacubas e mocotós

Aquela população tinha, agora, um gentílico (vila-riquense) que a identificava aos olhos de outras comunidades  e a unia; mas, no fundo essa união não ficou bem selada, pois os dois mais destacados arraiais conservaram a desconfiança entre si.

“Mocotós” (residentes no arraial do Ouro Preto/freguesia de Nossa Senhora do Pilar) e “Jacubas” (residentes no arraial do Antônio Dias/freguesia de Nossa Senhora da Conceição) conviviam, mas não se bicavam. Esse sentimento de antipatia mútua persistiu por 300 anos da cidade, só se arrefecendo à chegada da virada do milênio. 

Irmandades religiosas

Entretanto, o clima inamistoso, mantido sob aparências, produziu algo de bom ao longos dos anos, o que vem provar que pode o positivo estar presente até mesmo, nas manifestações a princípio negativas.

Durante o período colonial, associações civis, por óbvias razões, não eram permitidas pelos portugueses. Contudo, as irmandades religiosas não somente eram  permitidas, como  incentivadas; instrumento que valeu a “jacubas” e “mocotós” para levar à frente a disputa nascida antes mesmo de a cidade ser criada.

Proliferaram-se as irmandades religiosas na cidade, dando ao de fora uma visão de virtuosismo ligado à divindade, mas que na verdade, não passava de um véu a cobrir a luta silenciosa entre as duas correntes.

Do lado “mocotó”, assim apelidado porque era onde situava o comércio de carne, a comunidade católica se reunia na igreja de Nossa Senhora do Pilar; no lado “jacuba” (mistura alimentar à base de farinha de mandioca), a igreja era a de Nossa Senhora da Conceição

Igrejas de Ouro Preto

A paisagem urbana de Ouro Preto é pontuada por igrejas, aqui e ali, mas poucos ou quase nenhum “trezentão”, mocotó ou jacuba, percebe uma curiosidade, revelada por seus nomes.

As irmandades surgiam nos dois lados, nas duas freguesias (hoje paróquias). Bastava-se criar uma no lado mocotó, para que se criasse outra no lado jacuba, e, vice-versa; às vezes direcionadas à mesma invocação, mas sob nomes semelhantes, não iguais. A luta, travada por meio dos cochichos nas sacristias, nas fileiras da irmandades e, talvez, em encontros furtivos em casas dos membros, foi  feita com muita determinação, para não se deixar ao outro lado o sabor a da vitória. Pelo que se vê, hoje, jacubas e mocotós se mantiveram equilibrados, ao correr dos anos. Dessa competição surgiram 14 igrejas, entre as principais, 7 de cada lado.

Temos hoje, em Ouro Preto, as seguintes igrejas

No lado jacuba(bairro Antônio Dias) há duas paróquias, desmembrada que foi a de Santa Efigênia da original Nossa Senhora da Conceição

Paróquia Nossa Senhora da Conceição.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição – matriz da paróquia.

Igreja de São Francisco de Assis.

Igreja de Nossa Senhoras Mercês e Perdões.

Igreja de Nossa Senhora das Dores

Paróquia de Santa Efigênia

Igreja de Santa Efigênia e N. Sra. do Rosário – dos Pretos – matriz da paróquia

Igreja do Padre Faria.

Igreja do Senhor Bom Jesus das Flores.

Lado mocotó (bairro do Pilar)

Paróquia de Nossa Senhora do Pilar

Igreja de Nossa Senhora do Pilar – matriz da paróquia.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia.

Igreja de São Francisco de Paula.

Igreja de São José.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário – dos Pretos.

Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

Observem-se as similaridades entre as invocações. No lado jacuba/bairro Antônio Dias, está a famosa igreja de São Francisco de Assis, enquanto no lado mocotó/bairro Pilar está a de São Francisco de Paula. Neste caso, são invocações diferentes, mas há semelhança nos nomes. Veja-se, em seguida, também no lado jacuba, a igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, que tem como similar a igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, no lado mocotó/bairro Pilar. Agora, vejam-se os casos mais interessantes ainda. No lado jacuba está a igreja de Santa Efigênia, cuja invocação oficial é a de Nossa Senhora do Rosário – dos Pretos. Sabe-se que Nossa Senhora do Rosário era a invocação preferida dos negros, em torno da qual criaram danças e rituais próprios. Essa igreja é a penúltima no extremo leste da cidade (saída para Mariana). No lado mocotó, encontra-se a similar, igreja de Nossa Senhora do Rosário – dos Pretos, como penúltima no extremo oeste da cidade, saída para Belo Horizonte. Por fim, no lado jacuba, temos no extremo leste, a igreja do Senhor Bom Jesus das Flores, enquanto no lado mocotó, extremo oeste, fica a igreja do Bom Jesus de Matosinhos.

Essa animosidade jacuba x mocotó, segundo relatos esparsos, ocasionava eventuais confrontos entre grupos jovensde ambos os lados, a exemplo das gangues modernas, mas sem a gravidade destas últimas. Contudo, tomava-se cuidado para transitar no lado oposto. Nos anos sessenta alguns embates ainda aconteciam entre alunos de dois colégios tidos como rivais: o Colégio Alfredo Baeta, localizado no bairro Antônio Dias (jacuba) e o Colégio Arquidiocesano de Ouro Preto, localizado no bairro das Cabeças (mocotó)

A música a fechar o ciclo

O ciclo das realizações positivas deixadas pela disputa jacuba x mocotó foi fechado muito mais tarde após a edificação da última igreja, que foi a de São Francisco de Paula 1804/1878; e não foi com nenhuma obra concreta, porém com a promoção da música.

Desde a popularização dos instrumentos criados pelo belga Adolph Sax, Ouro Preto teria tido sucessivas bandas de música, uma em cada lado e de nomes semelhantes a exemplo de algumas das igrejas. Nenhuma conseguiu se sustentar depois de algum tempo. No final dos anos 20, século 20, as duas últimas, até então, encerraram as atividades.

Foi então que, em 1932, alguns músicos remanescentes de uma delas fundaram a Sociedade Musical Senhor Bom Jesus de Matosinhos; dizem que na sacristia da igreja do mesmo nome, no bairro das Cabeças (lado mocotó).

Bastou isso para o lado jacuba responder com a fundação da Sociedade Musical Senhor Bom Jesus das Flores. Fechou-se, então com música o ciclo das realizações, em forma de igrejas e obras de arte, resultantes do embate entre jacubas e mocotós ao longo dos anos, desde a chegada dos primeiros bandeirantes.

As duas bandas de música da cidade são, portanto, as últimas realizações, em consequência daquela secular animosidade. Crê-se terem ultrapassado os obstáculos que impediram a sobrevivência das predecessoras, pois já se aproximam do centenário, que as levará ao grupo das centenárias e sesquicentenárias dentro do município de Ouro Preto e região circunvizinha.

Mas Ouro Preto não é somente a cidade, tricentenária e rica em história, pois além dos seus limites se estende um território de 1245 Km2 , resultantes da soma de 13 distritos, incluindo-se o da sede onde se ergue a cidade.

São eles: Amarantina, Antônio Pereira, Cachoeira do Campo, Engenheiro Corrêa, Glaura, Lavras Novas, Miguel Burnier, Ouro Preto (sede municipal), Rodrigo Silva, Santa Rita de Ouro Preto, Santo  Antônio do Leite, Santo Antônio do Salto, São Bartolomeu.

“Trezentão” e “da roça”

Como se vê há outros ouro-pretanos, vários tipos, histórias diversas,  outros costumes, outras culturas e tradições. Se hoje o município de Ouro Preto é extenso, muito mais já foi, especialmente no período monárquico, mas o ouro-pretano da sede nunca deu muita atenção ao que fica fora da cidade. Aliás, até há pouco tempo, ele se referia ao ouro-pretano do interior do município como “da roça”. Com base nisso pode-se considerar que o ouro-pretano se divide em dois grupos: “trezentão” (da cidade) e “da roça” (de qualquer um dos outros 12 distritos).

Estrada de ferro

Quando se inaugurou a ferrovia (estrada de Ferro Dom Pedro II, depois rebatizada para Estrada Férrea Central do Brasil), o “trezentão” passou a conhecer  alguma coisa do seu município, quando se deslocava até à corte, Rio de Janeiro; posteriormente, criado o ramal Miguel Burnier/Belo Horizonte, ele expandiu sua visão, alcançando mais um pouco do território ouro-pretano, às margens dos trilhos. Era, basicamente, isso que ele conhecia de Ouro Preto, fora a cidade.

Estrada de rodagem

Chegados à região os primeiros automóveis, necessário se a abertura da primeira estrada de rodagem, na verdade, um caminho de cabrito, em comparação com as estradinhas de hoje. Ela ligava a cidade de Ouro Preto à capital, Belo Horizonte.

Como já havia a estrada de ferro, a primitiva estradinha acompanhava seu traçado, só deixando de fazê-lo à altura da estação Dom Bosco, situada em território do distrito de Cachoeira do Campo. Dali a estrada se desviava para passar nas áreas urbanas de Cachoeira do Campo e de Amarantina, indo alcançar os trilhos, novamente, em Itabirito.

Deduz-se, entretanto que o “sacrifício”, em se desviar dos trilhos, àquela altura, não foi devido aos belos olhos das duas localidades agraciadas. Tudo indica que a decisão de passar por Cachoeira do Campo se deve à influência dos salesianos, instalados com as Escolas Dom Bosco, no antigo e colonialista quartel de cavalaria.

Aliás essa influência já fora exercida, anteriormente, junto ao governo do estado quando a mesma congregação religiosa solicitou e o governo sancionou a Lei nº 111 de 24/07/1894 (Ouro Preto ainda era capital), que autorizava a construção de um ramal ferroviário até a localidade de Cachoeira do Campo; sancionou mas não cumpriu, criando uma grande frustração no espírito cachoeirense. Crê-se ter sido o primeiro embuste do regime republicano, aplicado ao cachoeirenses, antes mesmo de tirar de Ouro Preto o status de capital e abandoná-la.

Essa primeira ligação rodoviária com Belo Horizonte não teve muita importância para o “trezentão”, razão pela qual não se pode dizer dela mais um meio de se conhecer fatias do território ouro-pretano, mesmo porque ela acompanhava os trilhos da ferrovia; só se distanciando desta no trecho da estação Dom Bosco até Itabirito, conforme já dito.

O fato de haver poucos automóveis e ainda não haver um serviço de jardineiras (era como se chamavam os veículos coletivos primitivos), a estrada era pouco usada. Por aí se avalia o grau de aventura de quem se arriscava por ela com seu automóvel. Não tenho certeza, mas situo a primeira linha de jardineira para Belo Horizonte, nos anos 40.

Pequena grande viagem de jardineira na estradinha

Sei que em 1947 havia uma linha a ligar Mariana a Belo Horizonte. Eu contava, então, sete anos e viajei com a mamãe e dois irmãos mais novos a Nova Lima.

Embarcamos em Cachoeira, às 9h00 e desembarcamos em Nova Lima às 14h00. Cinco horas de pula-pula, solavancos, sustos e sobressaltos! Ao fim da viagem, parecia-me que o “recheio” das cavidades toráxica e abdominal estava todo misturado! Embora uma novidade para mim, – e criança gosta de novidades – garanto não ter tido nenhum prazer naquela viagem, ao contrário de em curtas viagens feitas de trem.

Lembro-me ainda que a jardineira só fazia uma viagem por semana: saia de Mariana, segunda-feira, e retornava, no sábado. Por isso, pobre só podia viajar, quando tinha parente no destino com disposição e caixa para sustentar a hospedagem, porque pagar pensão ou hotel por uma semana, só rico mesmo.

Ouro Preto só foi ter outra estrada a ligar com Belo Horizonte, em 1953, quando foi oficialmente inaugurada a que seria, no futuro, a Rodovia dos Inconfidentes. Iniciada em 1946 sua abertura se processou, em sua maior parte, por meio de pá, picareta e muitas carroças puxadas por burrinhos, nas mãos de centenas de operários. Praticamente, só entre Cachoeira e Outo Preto foram empregadas grandes máquinas, as primeiras que se viram no setor, em Minas.

A partir dos anos 50, Ouro Preto passou a contar com linha regular de ônibus diários para Belo Horizonte; uma alternativa ao transporte ferroviário, até então o único meio mecanizado que, infelizmente, a partir do incremento das rodovias foi, gradativamente, abandonado e sucateado, sendo-lhe, descaradamente, roubados até os trilhos.

Com a Rodovia dos Inconfidentes, gradativamente melhorada com alargamento e asfaltamento, abriu-se outra faixa para o “trezentão” deitar os olhos, de dentro do veículo mediante o qual se deslocava. Nem a maior atenção da administração pública, que passou contemplar distritos com melhoramentos urbanos, no início dos anos 70, mobilizou o ouro-pretano da sede para conhecer melhor o interior do seu município.

Foi necessário um fenômeno natural, para que a mentalidade do “trezentão” mudasse. As chuvas de 1979, que castigaram boa parte dos estados de Minas, Rio e Espírito Santo, contemplaram a cidade, não todo o município de Ouro Preto, com cerca de 40 dias de chuvas intensas e praticamente contínuas. Felizmente, não houve vítima fatal, a exemplo de muitas outras localidades, nos três estados. Entretanto, a destruição atingiu muitas famílias e monumentos públicos, como igrejas, por exemplo, foram seriamente ameaçados. Chegou a faltar víveres, na cidade, em decorrência do isolamento a que ficou condenada por alguns dias.

Passado o período do susto, aflição e muito corre-corre, alternativa de residência em outro ponto do município passou a ser considerada por muita gente. Nos anos 80, então, teve início o êxodo de residentes da sede municipal para um dos distritos, sendo Cachoeira do Campo o mais procurado devido a uma série de fatores.

As chuvas de 1979 deixaram patente que alguns pontos da cidade eram de alto risco, o que acabou se confirmando em  anos posteriores com mais desabamentos e deslizamentos de terra.  Foi a partir de então, trezentos anos depois das primeiras edificações aos pés do Itacolomi, que  o ouro-pretano daquelas paragens começou a considerar que havia Ouro Preto também além dos limites da sua cidade.